
A silly season está a chegar e, com ela, o tempo ideal para pôr a leitura em dia. E se há quem saiba reconhecer uma boa história, vale a pena ouvir as suas sugestões.
O Clube lançou o convite a autores e criativos para as sugestões de leitura para este verão. Fica a conhecer as suas recomendações.

Sugestões de Hellington Vieira
diretor criativo na TWDC, investigador e escritor

"Os Buddenbrook", de Thomas Mann
Levei este livro de férias no verão passado e foi uma ótima companhia. Conta a trajetória de quatro gerações de uma família da burguesia alemã, acompanhando a sua ascensão e posterior decadência ao longo do século XIX, num período de profundas transformações económicas, sociais e políticas que marcaram a Alemanha e a Europa. Escolhi “Os Buddenbrook” depois de ouvir que o universo de Thomas Mann é frequentemente associado ao cinema de Luca Guadagnino, um realizador por quem tenho imensa admiração.
"A Arte da Alegria", de Goliarda Sapienza
A história desta escritora impressiona-me muito. Teve uma vida pouco convencional até para os critérios atuais. Morreu em 1996 praticamente esquecida pela crítica, mas hoje é considerada uma das maiores escritoras italianas do século XX. O livro “A Arte da Alegria” só conheceu verdadeira publicação e reconhecimento depois da morte da autora. Hoje é considerado a sua obra-prima. Foi escrito ao longo de dez anos e recusado por várias editoras. Basta lermos as primeiras páginas e conseguimos entender melhor o porquê das rejeições. A narrativa acompanha Modesta, uma mulher que se reinventa constantemente através da sua inteligência, da sua sexualidade e de uma vontade de viver transgressora, que a leva a ascender socialmente sem nunca se submeter a regras ou qualquer tipo de culpa. Recomendo também o filme “Fuori” (2025, Itália) do realizador Mario Martone que, inspirado na vida de Goliarda Sapienza, faz um retrato profundamente livre do universo feminino e da sua complexidade.
“Clarice”, de Benjamin Moser
Benjamin Moser é o autor desta biografia, que contribuiu decisivamente para a projeção internacional da obra de Clarice Lispector. Foi ele também que escreveu a biografia de Susan Sontag, que recebeu o Pulitzer Prize em 2020. O livro “Clarice” foi uma das minhas companhias no verão passado. O percurso de vida desta escritora é fascinante, mas o livro conta-nos mais do que isso. Conta-nos parte da história da Ucrânia, onde Clarice nasceu, bem como da Europa e do Brasil do século XX, numa narrativa fluida, inteligente e surpreendente.

Sugestões de Franscisco Lampreia
copywriter na Adagietto e escritor

“Princípio de Karenina”, de Afonso Cruz
Pode não ser considerada uma das obras de “topo” de Afonso Cruz, mas prefiro fugir ao estrelato e recomendar uma história que guardo com um carinho especial. Neste livro, acompanhamos uma personagem na busca da felicidade ao longo da sua vida, lutando contra uma educação com base em princípios duvidosos e no medo do desconhecido, que faz erguer fronteiras e manter distâncias. Todos nós podemos ser felizes à nossa maneira. Espero que sejam felizes com esta leitura.
“Imagens estranhas”, de Uketsu
Este é um livro que não consigo parar de recomendar. Ideal para fãs de mistério, arrisco-me a dizer que a experiência de leitura desta obra é única e imperdível. A história desenvolve-se em torno de desenhos que contêm pistas necessárias para desvendar segredos. Parece simples, no entanto, somos apanhados numa teia de revelações fascinantes que nos fazem levar as mãos à cabeça. Recomendo o uso reforçado de protetor solar se a leitura for feita ao sol.
“Groot”, de Jeff Loveness
Groot é uma árvore que só diz “I am Groot”. Como é possível criar uma história interessante com uma personagem assim? É ler e ver… Até porque se trata de uma banda desenhada. Para quem procura algo divertido neste verão, esta é uma história engraçada e genuinamente comovente, algo cada vez mais precioso nos tempos que correm. Recomendo com todo o meu coração!

Sugestões de Leonor Ribeiro
cartoonista, atriz, poeta e slammer

"Maus", de Art Spiegelman
Foi a primeira novela gráfica a ganhar um prémio Pulitzer e retrata a história, verídica, dos pais do autor durante o Holocausto. Tive alguma dificuldade em ler as últimas páginas porque não conseguia parar de chorar.
Saga “The Dark Tower”, de Stephen King
Esta saga de oito livros é tudo ao mesmo tempo: western, epopeia, fantasia e ficção científica! Acompanha a jornada épica do protagonista, Roland de Gilead, em busca da Torre que se ergue no centro do multiverso, e conta com personagens que são cowboys, ciborgues, bruxas, chefes de máfia italiana, comboios falantes... e até o próprio Stephen King!
“O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie
Esta é a derradeira leitura de verão: um livro fácil de transportar na mala e que não vão conseguir largar! Se procuram o policial perfeito, com um mistério que vos prende do início ao fim, então este é o indicado. Quando acabarem de o ler vão pensar “como é que eu nunca li isto antes???” mas também “quem me dera poder experienciá-lo pela primeira vez novamente”.

Sugestões de Ricardo Fonseca
estratega e escritor

"Em tudo havia beleza", de Manuel Vilas
Um livro sobre a beleza das nossas memórias, mesmo quando elas não o são. Num registo audacioso entre a autobiografia e a ficção, este livro leva-nos pelos episódios da vida do escritor e a sua relação com a infância, os lugares que o marcaram numa Espanha conflituosa, e a profunda admiração pelos pais, ambos falecidos mas elevados à dimensão de heróis do livro.
"A psicanálise dos contos de fadas", de Bruno Bettelheim
Partindo de histórias que atravessam gerações, o autor revela como personagens-arquetípicas, como o Capuchinho Vermelho ou a Branca de Neve, nos ajudam a compreender medos, desejos e conflitos profundos e universais. Longe de serem meras narrativas para crianças, os contos de fadas moldam a forma como sentimos, crescemos e compreendemos o mundo. Uma leitura indispensável para quem vive de contar histórias.
"Um cão no meio do caminho", de Isabela Figueiredo
A autora de "A Gorda" traz-nos aqui uma estória delicada e comovente sobre a amizade entre duas personagens altamente antagónicas. Com a chegada inesperada de um cão, a vida dessas personagens transforma-se, revelando que, por vezes, são os encontros mais improváveis que nos devolvem o sentido de vulnerabilidade e pertença.

Sugestões de Margarida Azevedo
escritora e performer

Três vozes portuguesas, três gerações distintas
"Quem rasgou os meus lençóis de linho?", de Dora Nunes Gago
Quem rasgou os meus lençóis de linho? é uma obra que nos conquista pela subtileza e pela precisão do olhar. Dora Nunes Gago escreve a partir das fissuras da memória, das relações familiares e da intimidade, revelando que a verdadeira intensidade literária raramente se encontra nos grandes acontecimentos, mas naquilo que permanece por dizer.
É um livro que nos convida a desacelerar, a reparar nos pequenos gestos e nas ausências que moldam uma vida inteira. A sua escrita, sem excessos nem concessões, deixa espaço para que o leitor participe na construção do sentido.
"A Chave", de Margarida Fonseca Santos
A partir da figura de Deolinda, uma criada-menina arrancada à infância para servir, Margarida Fonseca Santos constrói um romance sobre aquilo que atravessa gerações sem nunca ser nomeado: os silêncios, as hierarquias, a violência quotidiana e a memória que insiste em permanecer.
Um livro a várias vozes, que se entrelaçam sem perderem identidade, revelando que a literatura pode ser, simultaneamente, espaço de criação e de reparação. Não há aqui julgamentos fáceis nem sentimentalismo; há uma escrita contida, rigorosa, que confia na inteligência do leitor e lhe pede disponibilidade para escutar o que tantas vezes ficou por dizer. É um romance que demonstra como a ficção pode devolver voz a quem, tantas vezes, fica à margem.
"Morramos ao menos no porto", de Francisco Mota Saraiva
Morramos ao menos no porto faz do amor um lugar de resistência. Através da ligação entre Silvina e António, Francisco Mota Saraiva constrói o retrato de um casamento ao longo de vinte e cinco anos, revelando como o amor pode sobreviver, ou sucumbir, à passagem do tempo, à violência, à perda e ao peso da memória.
Aos vivos juntam-se os mortos, que continuam a murmurar debaixo da terra, lembrando-nos que nenhuma história termina verdadeiramente e que todas as vidas são feitas das vozes que as antecederam. Há uma melancolia profunda que percorre todo o livro, mas nunca resvala para o desespero. Pelo contrário, é dessa convivência entre a dor e a ternura que nasce uma das mais belas qualidades da escrita de Francisco Mota Saraiva: a capacidade de transformar o sofrimento em literatura de grande intensidade poética. É um romance que permanece connosco porque nos recorda que amar é, também, aprender a coexistir com os fantasmas que a vida nos deixa.
Francisco Mota Saraiva domina a linguagem com uma maturidade rara, construindo uma prosa de grande intensidade, onde cada frase parece ter sido medida ao milímetro. É um daqueles livros que nos lembram que a literatura serve para encontrar uma linguagem capaz de dizer aquilo que julgávamos indizível. Um livro duro e imperdível!

Sugestões de Ricardo Henriques
redator independente e escritor

Sugestão com inveja:
"Contos Carnívoros", de Bernard Quiriny, Editora Ahab
Li-o há dois verões e adorei a forma como o autor apresenta as histórias, contadas por personagens anónimas que se cruzam com algo ou alguém bizarro. É assim que ficamos lá dentro e as reações delas são também as nossas. Gostava de conseguir escrever como este senhor ou como o Enrique Vila-Matas que aparece no fim com um rebuçado. Não é pirraça, mas penso que está esgotado. A edição é da presumivelmente extinta Ahab que, só pelo símbolo e design editorial já merecia ser conhecida. Quem tiver interesse pode tentar a livraria Snob, em Lisboa.
Sugestão com truque:
"Dor de Corno", de João Pina, auto-edição
O truque é que eu nunca li o livro, mas ouvi a análise séria e aprofundada dos doutores do podcast Livros da Piça. João Pina era um empresário que gravitava entre a animação noturna algarvia, a edição de livros e revistas e um incompreensível (para ele) azar no amor. O proprietário da boîte "A Cave" escreveu ainda “Profissionais da Noite” (também no podcast), “Liberto – O Big Boss” e “Boca no Trombone”. Leiam se tiverem coragem, ouçam o episódio se forem de carro para o Algarve.
Sugestão com vergonha:
"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, Tinta da China
Admito que li poucos autores brasileiros, mas a vergonha aqui é mesmo por este livro ser genial e só o ter lido agora. Tem humor, ironia e pérolas sobre a “volúpia do aborrecimento” ou a liberdade da morte que merecem vinte leituras e citações em quadros de ponto cruz. “Cada homem é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior.” Se ainda não leram, deixem-se de amofinações e corrijam-se. E a riqueza do léxico? Bati o meu recorde de idas ao dicionário.

Sugestões de Senhor Vulcão aka Bruno Pereira
fundador e diretor criativo da Labdesign e escritor

“David Hockney", de Chris Stephens e Andrew Wilson
Não é só um livro e um artista de verão, é de vida. Mas as suas cores e alguma bela displicência de traço transporta-me para o verão, para as sua vibrações e sons. Leveza de salpico, açúcar na boca e mansidão de sol.
“Tudo o que pensar, pense ao contrário”, de Paul Arden, Clube do Autor
Gosto muito da perspectiva deste pensador e alinho a minha vida muito com ela. O óbvio não me estimula e encontro desafio no contrário, no marginal, no não escolhido, na fruta feia. Fala também de foco, quando queremos muito algo há que fazer por isso, depois o resto vem, como ondas.
“As raposas estão a arder”, de Senhor Vulcão, Editora Urutau
Enquanto estamos a banhos e bolas de Berlim há florestas a arder no verão, bichos a ir e não voltar ao seu lugar. Escrevi este livro de poesia para eles e para a natureza, pois embora falem connosco todos os dias, nos dêem de respirar e comer, não ouvimos, deixamos ir, impávidos. Talvez um dia. É um livro escrito com tristeza profunda mas envolto numa fé que basta um humano para plantar uma floresta e mudar o pensamento.
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