As interseções entre catástrofe e utopia preparam o solo para a produção contemporânea de práticas artísticas e curatoriais, imersas em um tempo de crise prolongada. Pensar um projeto editorial e curatorial para esse contexto invoca o reconhecimento da fluidez e do hibridismo do nosso tempo, assim como requer a integração de diferentes discursos e práticas e a aproximação dos públicos com os processos de criação. O ecofeminismo, as teorias decolonial e queer, os feminismos interseccionais, dentre outros campos da crítica, se apresentam como ferramentas para uma leitura da contemporaneidade que não apenas interpretem, mas ajudem a pensar a sua própria complexidade. A realidade híbrida exige novas formas de reflexão e engajamento.
Ao articular reflexão crítica, investigação e documentação, a proposta editorial pretende dialogar diretamente com a necessidade de superar as dicotomias entre utopia e catástrofe, texto e materialidade, discurso e ação. Assim, o projeto quer-se inserir no debate sobre os desafios contemporâneos da arte e da cultura, reafirmando a importância de um pensamento que não apenas analisa o presente, mas propõe novas possibilidades de futuros.
O briefing consiste em desenhar uma revista bilingue, com vários artigos e ensaios sobre arte contemporânea e que reflita visualmente os conceitos deste número, aqui mencionados e explicados.
Em resposta ao briefing mencionado, o primeiro foco de resposta foi conceber uma revista que transparecesse os seus conceitos, nomeadamente os de “utopia” e “catástrofe”.
Para este objectivo, foi utilizada a cor como elemento principal. O verde flúor para representar a ideia de utopia, esperança, futuro, e o preto para representar a ideia de catástrofe, colapso e de extinção.
Através de um papel couché e do sistema de impressão em offset led, conseguiu-se atingir uma vibração de cor intensa, de forma a transmitir estes dois conceitos opostos e simultaneamente complementares.
A materialidade da revista também foi um elemento importante. O fine paper da capa tem uma textura que se assemelha à textura da pele da própria imagem. Neste sentido o design propõe-se ir para além da visualização da imagem e do olhar, chegando assim a outras sentidos, como o tacto.
A revista é constituída por várias categorias, nomeadamente por vários ensaios visuais, ensaios críticos, entrevistas, poemas. Foi necessário desenhar um conjunto de várias grelhas, com uma, duas e três colunas, para introduzir uma diferenciação nos artigos. Ao mesmo tempo que acontece essa diferenciação, também existe uma harmonia no desenho das colunas que permite criar uma identidade e uma narrativa coerente e consistente em todo o número.
Outra opção editorial foi a escolha da utilização das imagens sempre em grande escala. Foi preferida a escala das fotografias à sua quantidade.
Para dar resposta ao requisito de ser uma publicação bilingue, foi escolhida uma tipografia para cada língua, nomeadamente, uma tipografia não serifada para o português e uma tipografia serifada para o inglês.
No sentido de obter uma maior clareza na leitura e acesso aos artigos, o título aparece em tamanhos grandes nas duas línguas, com as duas tipografias presentes. Foi também introduzido um rodapé para o leitor poder identificar com mais facilidade onde se encontra.
Com estes elementos de desenho e de composição, a revista obtém um caráter forte e ousado, ao mesmo tempo que privilegia a clareza e organização dos seus conteúdos mantendo uma narrativa visual coerente e estruturada.